Igreja de São Cristóvão Igreja de São Cristóvão 41.073534, -8.129048

Igreja de São Cristóvão

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Com a fachada voltada para o vale do Douro, a Igreja de São Cristóvão de Nogueira é representativa da organização e formação das paróquias na Baixa Idade Média (1000-1453).

Segundo a tradição, o Castelo de Sampaio, pequeno morro cónico a sul, na encosta da serra, teria sido o assento da primitiva freguesia e Igreja, depois transferida para o lugar de Nogueira, por mouros possantes.

Trata-se apenas de uma lenda, das muitas que marcam a consciência das comunidades, desejosas de se mostrarem herdeiras de um passado extraordinário e glorioso. Contudo, esta narrativa pode ajudar a perceber não a transferência da Igreja, mas a cisão de duas paróquias, inicialmente sujeitas ao Castelo situado em Sampaio, onde, provavelmente, se cultuava o Salvador, dado que ao território foi atribuído este hagiotopónimo.

Talvez ainda durante o século XII, a terra fracionou-se em duas paróquias: São João Baptista de Cinfães (de cuja igreja românica apenas subsiste um tímpano apeado ao lado da atual matriz barroca) e São Cristóvão de Nogueira.

Em 1258 ainda aparece a designação de Sancti Salvatoris de Nogueyra a par com Sancti Christofori de Nogueyra.

Profundamente alterada na Idade Moderna, que lhe reconstruiu a capela-mor (finais do século XVIII), lhe rasgou amplos janelões e lhe anexou edificações, a Igreja de São Cristóvão é estruturalmente uma construção medieval enquadrada no chamado românico de resistência, onde se conjugam as persistências de sabor românico com os anúncios do gótico. 

A edificação desta Igreja deve ser entendida no âmbito da criação da nova freguesia, pelo que poderemos datar os vestígios românicos remanescentes da transição do século XII para o XIII.

De entre estes assume particular destaque o portal principal, tardio e inscrito na espessura do muro e sem colunas, mas cujas arquivoltas são ornadas no chanfro pelo motivo das pérolas, que conheceu grande fama na região envolvente.

Curioso é o portal lateral sul, dada a originalidade dos motivos esculpidos no arranque das aduelas. Duas mãos cerradas, colocadas sobre ambas as impostas seguram o que parece ser uma chave.
Também nos pés-direitos, definidos por uma aresta chanfrada, curiosos motivos decorativos, entre os quais destacamos um lagarto, do lado direito do observador. De resto, quer ao nível das restantes aduelas da arquivolta, como nas impostas e nos pés-direitos, imperam os motivos vegetalistas e fitomórficos entrelaçados relevados.

Composto por uma só arquivolta dominada pelo arco envolvente, na aduela do fecho vemos uma inscrição, bastante apagada, mas que pode traduzir-se em IHS, alusão a Cristo enquanto Salvador dos homens.

Ao nível dos alçados laterais da nave é de destacar o reaproveitamento de um friso decorado com palmetas bracarenses (lado norte, junto à torre sineira, a meia altura da nave) e de vários fragmentos de cornija ostentando ziguezagueados relevados.

A cachorrada da nave é bastante rica ao nível da temática esculpida. Figuras humanas e vários focinhos de animais recordam-nos que, particularmente durante a época românica, os modilhões foram assumidos como um elemento fulcral da composição arquitetónica.

No seu interior distingue-se um outro espírito, quase um horror ao vazio. Tendo em conta a regularidade dos paramentos das edificações românicas, estas mostraram-se importantes recetores da nova estética pós-tridentina, de que São Cristóvão de Nogueira constitui entre nós um bom exemplo.

O teto da nave mostra um rico trabalho barroco de artesoado e pintura, onde 57 painéis criaram um autêntico santoral: santos e santas da contrarreforma, santos bispos, apóstolos, mártires e os intercessores bem conhecidos do devocionário popular.

Embora tenha recebido uma policromia numa época posterior, que chegou mesmo a criar-lhe marmoreados, a talha desta Igreja representa os dois períodos que marcaram a sua conceção durante o século XVIII.

Nos retábulos colaterais, o estilo nacional e, no retábulo-mor, o barroco joanino, onde se destaca um imponente trono eucarístico. O recurso a este modo artístico tão português envolveu em Nogueira o arco triunfal, criou a guarda do púlpito, ornamentou os dois retábulos embutidos nas paredes da nave, confrontantes, e concebeu um extravagante coro alto. 
  

 

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