Igreja de Tarouquela Igreja de Tarouquela 41.069801, -8.187804

Igreja de Sta. Maria Maior de Tarouquela

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A importância histórica de Tarouquela é hoje apenas assinalada pela remanescente Igreja que era parte integrante de um dos primeiros mosteiros femininos da ordem de São Bento a sul do Douro.

A sua origem, em meados do século XII, associa esta casa monástica a um casal, Ramiro Gonçalves e sua esposa D. Ouruana Nunes, que adquiriram uma herdade que fora de Egas Moniz, dito o Aio de Afonso Henriques, e sua mulher.

Nela fundaram um Mosteiro que o Bispo de Lamego reconheceu em 1171 e que os seus descendentes confirmaram. Embora Tarouquela seguisse inicialmente a Regra de Santo Agostinho, com D. Urraca Viegas, filha de Egas Moniz de Ortigosa, alterou-se o hábito e as monjas passaram a professar a Regra beneditina.

Gerido por dinastias de abadessas, a história deste Mosteiro cruza-se com a das famílias mais notáveis da região. A influência dos Resendes deixou-se de sentir quase simultaneamente em Tarouquela e em Cárquere (Resende), onde foi sepultado Vasco Martins de Resende, sobrinho de D. Aldonça, abadessa documentada na passagem do século XIII para o XIV e que foi uma das mais ativas com um longo período de gestão, que lhe permitiu dispor de bens dentro do seu círculo familiar.

É natural que com a cessação da influência dos Resendes, o abadessado fosse parar às mãos de familiares e padroeiros do Mosteiro, ainda que temporariamente. No século XIV encontramos Tarouquela nas mãos dos Pintos, de Ferreiros de Tendais. A partir do século XV as sobrinhas sucedem às tias, mantendo o poder numa família muito ligada às elites urbanas do Porto.

No século XV já se verifica algum declínio no Mosteiro. Além do seu caráter intrinsecamente familiar, do seu isolamento físico e da sua dimensão, nota-se algum desmazelo por parte das monjas tarouquelenses. As abadessas quebravam muitas vezes os votos celibatários e agiam conforme os seus interesses pessoais.

Em 1535, instala-se em Tarouquela uma regedora, a abadessa de Arouca, D. Maria de Melo, para serenar os ânimos derivados da vontade régia de extinção do Mosteiro e preparar a transição para São Bento de Ave-maria, no Porto, em 1536. Este Mosteiro, fundado em 1514 por D. Manuel I (r. 1495-1521), fora construído para reunir num só lugar as monjas de diversos institutos femininos, como foi exemplo Tarouquela.

A história de Tarouquela explica-nos bem os testemunhos artísticos que as várias épocas nos legaram nesta Igreja que foi monástica. Embora a fundação do Mosteiro de Santa Maria de Tarouquela remonte ao século XII, os testemunhos românicos presentes apontam-nos para uma cronologia mais recente, já de inícios do século XIII.

A arquitetura e ornamentação desta Igreja românica traduzem o que se fez de melhor neste território. A escultura patente nos portais, frestas, capitéis, cachorros, tímpano e cabeceira, atestam uma riqueza plástica que, acima de tudo, pretende passar uma mensagem simbólica.

Parte desta escultura é realizada para ter uma missão pedagógica, ou seja, passar a mensagem de Deus: a igreja na Época Medieval era conotada como a imagem terrena da Casa de Deus. Nesse sentido a Igreja de Tarouquela demonstra claramente, através das suas formas e da sua escultura, a missão catequética que os edifícios românicos atingiram no nosso território.

A ornamentação patente na escultura da cabeceira, tanto ao nível exterior como interior, dá corpo a um dos melhores exemplares da arquitetura românica em território português. Apesar de ter sofrido um aumento, na Época Moderna (séculos XVII/XVIII), para receber o altar-mor, aproveita o aparelho românico, comprovado pela abundante presença de siglas de canteiro
No interior, devemos destacar a presença da escultura de temática beneditina - os animais com função apotropaica (proteção contra o mal); dois homens com uma só cabeça; as serpentes; a sereia; o homem entre duas aves; as palmetas bracarenses e a ornamentação de cariz geométrico.

Outro elemento interessante é o altar de sagração românico e respetivo tabernáculo, inserido numas das arcadas cegas da capela-mor, no lado da Epístola. Também a decoração do arco triunfal deve ser realçada, pois é caracterizada pela ornamentação de animais afrontados.

Os cachorros são igualmente originais e representam as fraquezas humanas, como, por exemplo, o exibicionista, ou seja, o homem acocorado que segura os seus órgãos genitais. No alçado lateral esquerdo encontramos uma representação feminina com o sexo exposto.

No entanto, tem sido o arranjo do portal principal que mais desperta a atenção do espectador. A sua composição evidencia um programa ornamental bastante complexo, sendo considerado um dos mais curiosos exemplares da escultura românica portuguesa.

Neste espaço devemos distinguir o trabalho dos capitéis, mas têm sido os chamados cães de Tarouquela, que mais surpreendem. Encontram-se colocados sobre as impostas, de cada lado do portal e podem ser descritos como dois quadrúpedes de cujas mandíbulas pendem corpos humanos nus, presos pelas pernas. De evidente caráter apotropaico, testemunham uma vontade de afastar as forças malignas.

Adossada ao alçado lateral direito da Igreja, encontra-se a capela funerária de São João Baptista (atualmente sacristia), que foi instituída por Vasco Lourenço nos finais do século XV.
Até 1980, no seu interior poderíamos encontrar alguns túmulos, que atualmente podemos apreciar no exterior. Não sabemos quem são os tumulados, no entanto, alguns símbolos presentes nas tampas sepulcrais dão-nos algumas pistas, como por exemplo, a representação de uma espada e um báculo de abadessa.

Embora a imagem atual do interior da Igreja derive em grande parte duma intervenção de restauro realizada na década de 1970, a verdade é que esta chegou a ter cinco altares. Hoje apenas apreciamos o altar-mor e um outro, na nave, do lado esquerdo, ambos dentro da estética barroca.

Nos altares colaterais (mesas de altar em pedra), devemos destacar os vestígios mínimos de pintura mural que exibem interessantes barras decorativas manuelinas.

De notável trabalho é a escultura em médio relevo da Virgem entronizada amamentando o Menino Jesus, datada de cerca de 1500 e proveniente de uma oficina de Bruxelas (ou produção de Malines).

Nesta representação de Santa Maria, a Maior, colocada sobre mísula no retábulo-mor, do lado do Evangelho, junta-se ao hieratismo medieval da posição majestática, um virtuosismo que parece apelar à piedade moderna.
 

1847